Gravei um vídeo sobre isso na quinta, no meio da semana em que as duas coisas aconteceram. Aqui vai a versão escrita, com os números conferidos e uma correção importante que fiz depois de checar a documentação oficial da Anthropic.

Dia 10 de setembro a OpenAI parou de aceitar cliente novo no ChatGPT Pro de US$ 200.

Não foi por falta de gente querendo pagar. Foi o contrário: gente demais querendo pagar.

US$ 200 por mês dá US$ 2.400 por ano por cabeça. Empresa em hipercrescimento não vira as costas pra isso. A não ser que cada cliente novo saia mais caro do que entra.

E sai. Fui atrás do número e ele é pior do que eu imaginava. Segundo o estudo da SemiAnalysis, a OpenAI fica com margem bruta negativa no Pro de US$ 200 assim que você usa 5,7% do que o plano permite.

Você compra o plano, usa menos de 6% dele, e dali pra frente a empresa tá no prejuízo com você.

Eles não subiram o preço. Fecharam a porta.

Racionar é aumentar o preço com outro nome

Subir preço aparece. Sai no noticiário, gera thread raivosa, entra na planilha do cliente.

Racionar não aparece em lugar nenhum. Você só percebe que o limite bateu mais cedo hoje e acha que foi você.

A sua fatura vem igualzinha. O seu custo real subiu.

Aconteceu duas vezes em quinze dias. OpenAI de um jeito, Anthropic de outro. Nenhuma das duas falou a palavra aumento.

A conta que ninguém queria mostrar

Em junho a SemiAnalysis comprou os planos da OpenAI e da Anthropic, rodou tarefa pesada em cada um até estourar a semana e precificou tudo pela tabela de API.

Saíram dois números de lá. O que viralizou foi o primeiro: uma assinatura Pro levada ao teto consome trabalho que a própria OpenAI venderia por até US$ 14 mil por mês.

Agora deixa eu ser honesto com você sobre esse número, porque tem muita gente repetindo ele errado essa semana e eu não quero ser mais um.

Os US$ 14 mil não são o custo da OpenAI. São o preço que ela cobraria de você na API pelo mesmo trabalho, e preço de API já vem com margem embutida. Quem tá dizendo por aí que “a OpenAI perde US$ 13.800 por cliente” tá falando bobagem, e é o tipo de bobagem que derruba o argumento inteiro quando aparece alguém no reply com a conta na mão.

O número que aguenta pressão é o outro. Os 5,7% são a SemiAnalysis modelando custo de verdade, não tabela de venda. E o limiar não é privilégio da OpenAI: no Plus fica perto de 11,4%, e nos planos do Claude, entre 10% e 20%.

Junta tudo e a conclusão é meio constrangedora. Esses planos só fecham porque quase ninguém usa o que comprou. Você tá financiando o cara que usa de verdade.

Enquanto a média se comporta, o modelo de negócio funciona. Quando chega um modelo que faz todo mundo usar mais, acaba.

Foi esse o roteiro, pelo que dá pra ver de fora. Astra saiu dia 3. Dia 9 o Thibault Sottiaux, o Tibo, que toca Codex e ChatGPT na OpenAI, já avisava: “a demanda pelo Astra é realmente sem precedentes. Estamos puxando todas as alavancas possíveis, mas eu nunca vi nada assim, e já passamos por crescimento muito acelerado antes.”

O Sam Altman respondeu no mesmo dia, citando o post: “isso seria uma merda, mas vamos priorizar um ótimo serviço para os clientes até conseguirmos voltar a controlar a situação.”

Altman citando o aviso do Tibo, 9 de setembro. 1,6

No dia seguinte, pausaram: “pra garantir que nossos usuários atuais tenham uma experiência incrível e acesso contínuo ao Astra, vamos pausar as assinaturas do nosso plano Pro de US$ 200. Elas colocam a maior pressão nos nossos sistemas.”

Menor passo possível. Sete dias depois do lançamento, a porta do plano que dá acesso ao modelo fechou.

E não é a primeira vez. Novembro de 2023, depois do primeiro DevDay, pausaram o Plus de US$ 20 pelo mesmo motivo. Naquela época apertou no plano de 20. Agora apertou no de 200. O de 200 hoje é o que o de 20 era naquela época, e vai subir de novo.

A Anthropic fez pior, e fez com uma frase

Amanhã acaba o bônus de 50% no limite semanal do Claude Code. O anúncio saiu dia 29 de agosto.

Antes de qualquer coisa preciso corrigir uma coisa que eu mesmo falei errado no vídeo, e que vi quase todo mundo errando também. O bônus era só do Claude Code. Fui na documentação oficial conferir. Vale pra Pro, Max, Team e Enterprise por assento, não mexe nos limites de 5 horas e não tem nada a ver com o Claude do navegador. Se você usa Claude no chat e não no Code, esse corte não é seu.

A documentação oficial da Anthropic: o aumento de 5

Pra quem usa o Code, a conta é simples. Pega 100 como base. Com o bônus você tava em 150. Segunda você acorda com 125.

150 vira 125. Corte de 17%.

Eles chamam de “aumento permanente de 25%”. Tecnicamente não é mentira, porque 125 é 25% a mais que 100. Só que ninguém vive na base de 100 desde maio. Todo mundo vive nos 150. Eles escolheram o número que ficava bonito.

E olha, não sou eu dizendo isso. A própria Anthropic escreveu, no post seguinte ao anúncio: “comparado a hoje, isso dá uma redução de 17% nos limites semanais do Claude Code”.

E tem uma conta que quase ninguém fez essa semana. Com o preço parado, cortar 17% da cota encarece 20% cada unidade de trabalho. É a conta do pacote de biscoito. Mesmo preço, menos biscoito, cada biscoito mais caro.

“Então eu migro pro Grok”

Eu também olhei pra lá, a tabela é dura de ignorar. Astra cobra US$ 10 na entrada e US$ 50 na saída por milhão de tokens. Grok 4.6 cobra US$ 2 e US$ 6.

Mas eu não montaria fornecimento em cima disso agora, por um motivo simples: o Grok 4.7 não existe. Musk falou dia 1º que saía em “uns 10 dias”. Dia 11 falou que precisava de “mais alguns dias no forno”. Até hoje a xAI não publicou página, preço nem benchmark.

E não existe física diferente pra xAI. Concorrente barato alivia hoje, não garante preço nem capacidade no ano que vem.

Pra quem tem empresa, isso é problema de margem

E é aqui que eu queria chegar.

Quem usa IA pra brincar, pra firula, pode fechar esse e-mail. O plano de 20 vai continuar servindo.

Agora, se uma interrupção de IA atrasa atendimento, vendas, produção ou suporte na sua empresa, então ela parou de ser ferramenta e virou insumo.

Insumo tem preço, tem fornecedor e tem que aparecer na conta de resultado. Nenhum dono de padaria fica sem saber quanto paga na farinha. Mas eu converso com muito empresário que não faz ideia de quanto gasta em IA por mês, e já botou IA no meio do processo que gera a receita dele.

São três perguntas. Responde de verdade, nem que seja mentalmente.

Primeira: quanto você gastou em IA no mês passado, somando tudo? Assinatura, API, e o que já vem embutido no preço de outros softwares que você paga. Se a conta não fecha em trinta segundos, a resposta é: você não sabe.

Segunda: quanto disso virou resultado aprovado? Aqui eu vou ser chato de propósito. Não vale “propostas enviadas” nem “tarefas geradas”. Vale proposta que virou venda, atendimento resolvido sem reabrir, entrega aceita pelo cliente.

Terceira: se sua cota cair 20% e o preço ficar igual, o que acontece com sua margem? Isso é teste de estresse, e você acabou de ver dois acontecerem em quinze dias.

Como medir sem virar um projeto

Não precisa de ferramenta nova nem de consultoria. Escolhe um processo, um só, e por uma semana anota quatro coisas: a tarefa, o gasto de IA, quantas entregas saíram aprovadas e quanto tempo você gastou revisando. O tempo de revisão importa porque é ali que o ganho vaza sem ninguém perceber.

Divide o gasto pelas entregas aprovadas. Esse é o seu custo por entrega.

Sem esse número você não sabe se tá economizando ou jogando dinheiro fora. E quem não sabe descobre quando a margem já foi.

Quem usa IA com método vai pagar mais e continuar ganhando. Quem usa por hábito vai pagar mais e não vai entender por quê. A diferença entre os dois não é orçamento. É medição.

Não precisa me responder nada.

Abre a fatura de setembro. Soma tudo que você paga de IA. Agora responde pra você mesmo: quanto disso virou dinheiro?

Se você não souber, o problema nunca foi o preço da OpenAI.